RAGAZZO DI FAMIGLIA

CONTOS



O ENFORCADO

por Leonardo de Moraes

Arnaldo havia acordado cedo para resgatar o quanto antes quatro títulos protestados no 26º Tabelionato de Notas no centro de São Paulo. Cabisbaixo, teve ainda de negociar prazos de uma dívida no Banco, fruto de um empréstimo astronômico que fizera há pouco mais de seis meses. Por sorte, a gerente era uma simpática loira de coxas grossas, que interessada no rapaz, sempre se punha muito à vontade diante de suas visitas cada vez mais costumeiras.
“Escute, Arnaldo... vou te dar uma dica que vai levantar seu moral...” e a gerente lhe disse que na Rua São Bento, numa pequena galeria, ele poderia encontrar ajuda para todos os seus problemas. “Mais do que isso, querido... você vai achar a solução”.
Arnaldo sorriu, e antes de almoçar, foi a tal galeria. A moça havia lhe indicado apenas mais um agiota a querer lhe emprestar dinheiro. Refletiu, sorriu e partiu. Ainda prefiro os bancos, disse para si. No entanto, entre lojas de tatuagens, eletro-eletrônicos e máquinas de xérox, deparou-se com um logotipo em néon: um grande e arroxeado olho egípcio parecia piscar-lhe, convidando-o a entrar.
“Mas que será isso?”
Arnaldo olhou para o cartaz colado ao vidro:

MADAME NAZARA-LÓTUS DEVOLVE O EMPREGO E O AMOR. EXPERT EM DESATAR NÓS E DESAMARRAR A BOCA DE SAPOS

Arnaldo se lembrou da ex-noiva Carolina, da situação de sua empresa, e de tudo o que tinha perdido naqueles últimos seis meses. Realmente, alguma força misteriosa parecia estar operando por detrás de todas as desgraças de seu dia-a-dia. Foi então que uma menina de seus doze anos, subitamente empolgada, lhe entregou o único folheto que tinha nas mãos. “Moço, moço... você deve entrar aqui! Deve entrar aqui! A Madame Nazara-Lótus vai resolver todos os teus problemas!!!”.
Arnaldo olhou para ver se era realmente com ele que a pequena estava falando. Certificou-se que sim... Devo estar com o fundo do poço estampado na minha cara... e curioso, resolveu entrar.
“A Sra. Nazara está?” perguntou timidamente ao recepcionista. O mulato de sobrancelhas tiradas se esmerava em transformar as unhas em um espelho, tal a ferocidade com que lixava os sabugos.
“Madame está com apenas um cliente, pode esperar naquele sofá”, disse sem elevar o olhar um só instante, mas com um estranho sorrisinho no canto dos lábios.
Arnaldo se esforçou para ficar confortável durante os vinte minutos seguintes. Leu algumas revistas, mas sentava e levantava sem parar, quase tropeçando nas dobras do carpete. Pensava em ir embora dali, mas o desespero amoroso e financeiro funcionavam como duas pesadas bolas de ferro em seus pés.
“Pronto... Madame já poderá recebê-lo...” e o recepcionista – já de unhas feitas – lhe indicou o caminho.


Arnaldo seguiu um corredor e viu-se em uma outra ante-sala, esfumaçada por conta de um incensário. Na meia-luz, impressionou-se com alguns quadros tortos na parede roxeada. “Cacique Pena-Verde e a escada dos sete raios místicos – que diabos será isso?” Os olhos pinicaram de tanto fumacê, e lacrimejando por minutos, assustou-se com uma mão de mulher em suas costas.
“Venha por aqui. Agora você já está limpo”.
“Limpo? Como assim limpo?” perguntou intrigado.
“A ante-sala e o incenso limpam a aura, querido. Assim, quando a pessoa entra para ter com Madame Nazara, já está harmonizada.”
“Ah...” e Arnaldo ultrapassou uma cortina de contas, rumo a uma saleta escura. Um cheiro adocicado de jasmim tomava posse de suas narinas. Ao centro da saleta, uma pequena mesa circular lhe esperava, iluminada apenas por uma vela.
“Pode sentar nessa cadeira, relaxe seus ombros. Madame Nazara tudo pode revelar, tudo pode acalmar... desde que pague seu preço a Nazara... lhe dando a energia necessária para a leitura...”
Ela já estaria cobrando a consulta? Falava de si em terceira pessoa? Arnaldo indignou-se um bocado. Mas a mulher pareceu adivinhar-lhe os pensamentos, enquanto se ajeitava do outro lado da mesa.

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Escrito por Leonardo de Moraes às 15h11
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O enforcado - 2ª parte

“Nada de dinheiro agora, querido. Sou apenas um vaso, onde o astral deposita Madame Nazara Lótus. Faça uma oração em pensamento... e mentalize os seus problemas”.
Oração em pensamento? Tudo bem, afastaria o senso crítico antes que tivesse vontade de tirar um sarro de Madame. Pensou em Carolina e na possibilidade de ainda tê-la de volta... pensou no empréstimo junto ao banco, e porque teria sido tão tolo em aceita-lo... Parou de relutar, e entrou no clima.
“Madame Nazara já está se aproximando deste cavalo... agora é Madame Nazara quem falará.”
O frio na barriga foi incontrolável. Os lábios e os dedos da mulher começaram a tremer sobre a mesinha circular, como se tivessem personalidade própria.
“Meu rapaz, que a paz de Lótus te envolva... Sei que estás com problemas pessoais e profissionais... Quero que respire profundamente, para que todos os raios místicos possam operar dentro e fora do teu eu-espiritual.” Arnaldo fez o quanto foi pedido, sem rir.
A mulher se pôs a embaralhar um montinho de cartas: “Uhn... Arnaldo... Arnaldo Santos Gouvêia... filho do raio dourado...”
Como sabia seu nome inteiro? Ele teria comentado isso?
“Pegue sete cartas e as entregue para mim... na ordem de sua tirada” disse a mulher, espalhando o baralho em fileira. O rapaz engoliu em seco, fazendo o quanto pedido. Madame Nazara alinhou as cartas em formato de cruz, e as foi revelando devagar. Emitia interjeições, aumentando a acidez do estômago do rapaz.
“Porque tanta dificuldade em abrir mão, Arnaldo?” A pergunta soou como um golpe certeiro. Abrir mão do que? Da empresa de computação que estava se afogando em promissórias, ou da ex-noiva Carolina, cujo pai militar se tornara um tormento em suas vidas?
“Tua carta de significação, meu filho, é o Cinco de Espadas. Sabes o que é isso?”
Ele afirmou que não. “Isso mostra o que está na tua vida, o que te atormenta o sono e queima tuas entranhas...”
“Como?” retorquiu o rapaz, tenso.
“Tu tens de abrir mão, tens de encarar que não podes fazer tudo o que pretendes... que vai ter de superar o orgulho para aceitar apenas aquilo que podes fazer. Pára agora!” berrou a mulher
“Hã?”. Arnaldo assustou-se.
“Pára agora de abraçar o mundo! O momento é de renúncia...”
Madame pegou a mão do rapaz. Olhou para a palma, e logo pediu que a fechasse. Virou outra carta, e Arnaldo não gostou do que viu.
“Que carta é essa?”
“Carta cruzada, meu filho. É aquilo que tá bloqueando a tua vida.”
“Tudo bem... mas que desenho estranho é esse?”
“Esta é a carta do Enforcado.”

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Escrito por Leonardo de Moraes às 15h08
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O enforcado - 3ª parte

“Como???” e temeroso, ele então se questionou porque cargas d’água havia entrado naquele lugar.
“O Enforcado sacrificou demais a própria vida, e agora paga um preço assustador...”. Ela parou por alguns instantes, fazendo suspense propositalmente... então continuou. “A Roda da Fortuna já passou pela tua vida, fazendo o que era alto ficar baixo e o que era baixo ficar alto...”
“Sim... de fato eu...” Arnaldo tentou falar algo, mas logo foi interrompido.
“Sacrificaste demais tua vida para agradar aos outros... mas agora deve cortar as amarras do passado! As ilusões que pensas desejar... jamais serão tuas!”
De fato, Arnaldo havia sacrificado tudo pelo trabalho. Amizades, horas de sono e a leveza da juventude. Tudo feito para rechear a conta bancária, mas desde quando uma vidente lhe diria do que era ou não capaz? Quem seria ela para criticar suas ilusões?
“O que nunca vai ser meu?” indagou nervoso. A mulher virou outra carta.
“O que pensas ser teu amor... jamais será teu”, e Madame Nazara apertou os olhos, sinistra.
“Onde que tá isso, mulher? Na carta???”
Madame gargalhou e indicou com as unhas em formato de cunha: “Oito de Copas... a despedida da alma... a desistência da bem-querência”.
“Do que está falando, mulher? Eu só vim aqui para...”
“Não mintas para si mesmo! Vejo choro e luto na insistência frente ao amor do passado! Cuidado!” ela gritou incisiva.
“Quer saber, eu vou embor...” mas Arnaldo não teve tempo de se levantar da cadeira. A mulher tomou-lhe as mãos e o segurou junto à mesa. Disse incisiva, olhos nos olhos:
“Quando um caminho não será, não se teima. Se as coisas se perdem na jornada, é porque se deve deixa-las para trás... se caíram, não se deve retoma-las... que fiquem onde deveriam ficar!!!”
“Que está falando, mulher? Isso é besteira, eu não vou...”
“Negue, negue que tua empresa está com problemas por conta daquilo que considerava teu amor!!!”
Arnaldo ficou parado. Realmente, lembrou de Carolina e das dívidas que contraíra apenas para mostrar ao sogro Coronel o quanto ele estava se dando bem em sua micro-empresa. Talvez a tal Madame Nazara soubesse do que estava falando...
“Vejo nas tuas mãos...!” disse a mulher, torcendo os os braços de Arnaldo, “... o amor e a ajuda estão em outros braços, em outro sorriso!”
“Como, como assim? Quem eu...”
“Ela já te ajuda, já está presente em sua vida! E é iluminada pelos raios rosas de Saint Germain...”
“Ela o quê? Será que eu já conheç...”
“Sim, sim, sim! Você a amará com toda a toda a sua força!” e a mulher indicou outra carta sobre a mesa. “Você a amará com toda a sua potência!”
“Mas eu não...”
“Você a reencontrará ainda hoje, e enfim... sua vida terá o rumo que deverá ter! Agora vá! Vá-se daqui para nunca mais voltar!!!”
Arnaldo ficou constrangido. Tentou tirar o dinheiro do bolso mas foi impedido.
“Não devo aceitar seu dinheiro... Agora vá!”

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Escrito por Leonardo de Moraes às 15h07
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O enforcado - 4ª parte

 Arnaldo foi expulso da saleta, e seguiu em direção à saída da loja esotérica. Quanta maluquice! Desceu os dois lances de escada em direção à movimentada Rua São Bento. Iria almoçar rápido, e dali voltar para sua empresa, mas ouviu ao longe um chamado.

“Arnaldo, Arnaldo!” e a gerente de seu banco acenava, vistosa. “Estou indo almoçar, será que você gostaria de me acomp...”

“Claro!” ele respondeu, pensando nas palavras de Madame Nazara. Se ele já conhecia a mulher de sua vida... e se ela já o ajudava, ou se tratava de sua mãe, sua secretária de cento e cinco quilos ou então... a simpática gerente de seu banco! Sim, porque afinal de contas, ninguém que não fosse iluminada pelos raios rosa de Saint Germain, poderia usar uma saia rosa tão apertada contra as carnes... mas ainda assim tão graciosa. Arnaldo sorriu, liberto do passado, e esperançoso dos dias que se sucederiam. A gerente sorriu em retorno, extasiada com a atenção que recebera. Dali a oito meses, os dois estariam se casando.

 

* * *

 

Instantes depois do almoço, ainda à espera do cafezinho, a gerente pediu licença a Arnaldo e foi ao toalete. Pegou seu celular, discou e falou –empolgadíssima – com sua madrinha, do outro lado da linha.

“Deu certo! Ele até já me beijou!”

“Não havia te garantido? Moço curioso, era batata que ia entrar!” respondeu a mulher.

“Dinda, agora pode desamarrar! Tira logo o nome dele da boca do sapo!”

“Fique tranqüila, minha afilhada... Madame Nazara-Lótus promete, Madame Nazara-Lótus faz!”



Escrito por Leonardo de Moraes às 14h59
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