RAGAZZO DI FAMIGLIA

CRÔNICAS



Escritor em desabafo

O peixe que me venderam

 

 

Escrever é trem complicado. Idéias, palavras, idéias, palavras. Ambas me acompanham, sou grato. Elas vêm como que trazidas por algum “bilhete único”, a baraterar a condução. À vezes, porém, entram em sórdida disputa.

 

As palavras são simpáticas, pontuais. Ficam na cozinha, pano-de-prato à mão, preparadas para o serviço doméstico.

As idéias são apaixonantes. Preferem tomar um café, pernas cruzadas na sala-de-estar para deliberar o cardápio:

__ Devo ser escrita primeiro. Serei popular!

__ Comigo ele vai ganhar credibilidade!

__ Nada disso. Sou mais densa. Veja minhas tramas!

 

Falam como comadres à espera do cirurgião. As idéias diagramadas jogam à mesa suas tramas encadeadas. Tanta organização, e as palavras mostram-se inseguras para o serviço. Já as idéias grandiosas, da espécie vou-roubar-teu-sono te chantageiam, fazem nascer o temor do inconsciente coletivo, da antena alheia. E se esta traiçoeira pousar no ombro de outro escritor? Tanta volúpia possessiva, e a palavras desistem do serviço.

 

Medo: mudo fico.

 

Medo e criatividade não coabitam. Diante tela do computador vem um tipo de branco: o da abordagem criativa: qual o melhor formato? Tempero com sentimento ou sarcasmo? Filosofo ou sintetizo?

 

Fazer palavras e idéias entrarem em harmonia, jogo difícil. Apenas ignoro, abaixo as expectativas, desprezo a ansiedade. Como num sonho, excesso de consciência te faz acordar.

 

Letra a letra, palavra a palavra, oração a oração, período a período, parágrafo a parágrafo, capítulo a capítulo, o melhor é não pensar em nada, pensando em tudo ao mesmo tempo. Dizem que é nesse paradoxo que mora a arte. Pelo menos, esse foi o peixe que me venderam...



Escrito por Leonardo de Moraes às 20h12
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Confissões de um escritor

por Leonardo de Moraes

Depois de um texto bem escrito ou dois, três dias sem sentar diante da tela em branco do meu computador, me pego pensando será que vou conseguir escrever mais alguma coisa? Ser (estar) escritor é algo intangível: só se é no momento exato da criação, quando uma a uma as palavras são combinadas, entalhadas. Passado o momento, sou como a criança febril que quebrou um termômetro - entre as broncas da mãe, luto pra umedecer minhas mãos com o mercúrio, mas ele insiste em se esconder entre as dobras dos dedos.

Mas me considero um privilegiado: tenho um saúdavel distanciamento das minhas criações - quase raro na visceral raça dos escritores. Não me prendo a eles, tampouco me deixo prender. Ouço - até hoje - a voz da minha professora de literatura dos tempos do ginásio: "escreva, revise, corrija, mas não faça isso para sempre. Uma hora o texto pede para estar pronto, e o melhor que você fará é deixá-lo ir, do jeito que veio ao mundo, perfeitamente imperfeito".

Também creio (sinceramente) que não sofro de ciúmes das minhas produções; nem da psicanalítica "síndrome do ninho vazio" - aquela do filho-texto, abandonando seu hardware e saindo por aí, bêbado e sem licença para dirigir, prestes a ser submerso na crua-cruel apreciação alheia.

CONFESSO, PORÉM, PUBLICA E ABERTAMENTE, que temo a seca. Temo perceber que um dia o encanamento entupiu, a água parou de jorrar e o solo rachou. Pior: receio ser acometido de um tal daltonismo literário que me faça acreditar (piamente) que verde-abacate e cor de abóbora fazem um bonito degradè.

Mas sejamos otimistas. No dia em que isso acontecer, que a literatura resgate o "new wave" oitentista, e que meus escritos sejam considerados de vanguarda, um chamariz à moda caleidoscópica das letras. Talvez, com esse artifício, eu consiga reter o mercúrio da criação entre os dedos, num tempo suficiente para terminar meus dias me chamando escritor.


www.leonardodemoraes.com.br



Escrito por Leonardo de Moraes às 15h19
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Pelo buraco da traqueostomia...

por Leonardo de Moraes

 

 

Preciso parar (de gostar) de fumar. Estou indo, definitivamente, de tenor a barítono. O problema é que segundo as malfadadas fotinhos atrás de cada maço, daqui a alguns anos vou ter que cantar "Nessum Dorma" pelo buraco da traqueostomia.

 

Mas não acredito que cigarro faça mal! Imagine só! Isso é um complô socialista, contra os arqui-inimigos do mundo de Marlboro. Assim como a malévola Coca-cola, o cigarro é perseguido por seu forte conteúdo ideológico ianque (!).

 

Há o lado bom: a fumaça do cigarro presenteou minhas cordas vocais um quê de encanto-cafona. Ao telefone, sou confundido com locutor de AM fazendo promoção de estadia em Motel. Maravilha... Pra ser perfeitamente entendido, tenho que falar alguns-vários tons mais alto. Se falar baixo, só ruído: como aqueles carros pré-injeção eletrônica, esquentando o motor a álcool na garagem.

 

Falando em álcool, não existe nada pior que o pânico de um ex-fumante diante de um chopp suado. Nos primeiros meses de abstinência da fumaça, se você sair pra beber, certamente vai fumar. Na minha última tentativa de me separar da minha amiga nicotina e do meu cumpádi alcatrão, me tranquei em casa. Eu, minha namorada, meu cachorro e potes de sorvete. Sair pra jantar? Imagine só... vou tomar vinho, e aí, por certo, fumar. Aniversário de amigos? Nããão... sem um cigarrinho, quanto tédio! Pior era aguentar meu irmão "fumante-social":

 

"Eu só fumo a noite, na ba-la-da. Nada a ver quem fuma todo dia..."

 

ARGH! Nada, nada, nada pode ser mais irritante para um ex-fumante ter de ouvir uma coisa dessas. Como alguém consegue manter uma relação civilizada - e não passional - com um cigarrinho? Pois bem, sou daqueles que esgotam o maço, que liquidam o pacote de bolachas bono diante de "Benji, o cachorrinho". Gosto de quem vai fundo. Nada de molhar os pés no raso. Tenho até um exemplo hollywoodiano para dar.

 

Nesses meus tempos de exílio da civilização, quando tentei parar de fumar, assisti em DVD o filme "Laura" (1944). Estrelando a trama - complexíssima para a época - estava Gene Tierney, incrivelmente sensual no clássico dos clássicos dos filmes noir P&B. O filme acabou e eu cliquei em "extras". Entre o ressonar da minha namorada e os espasmos (?) do meu cachorro, soube que Tirney, ao ingressar na carreira, foi incrivelmente criticada por ter uma voz "parecida com a da Minnie Mouse". Solução encontrada? Adivinhem... dou uma tragada pra quem adivinhar...

 

Gene Tierney começou a FUMAR, FUMAR e FUMAR. Eis o segredo da sexy voz de Laura! Ela fumou ininterruptamente até os 70 anos, quando então morreu de câncer nos pulmões. Mas não me venha com pueris relações de causa e efeito! Não senhor, a culpa não é do cigarro... sejamos mais criativos. O fato é que Tierney tinha uma queda por picles em conserva, e as estatísticas mostram que eles, assim como os diabólicos palmitos, têm agredido sobremaneira a saúde de incautos e incautas ao redor do mundo.

 

Agora me dêem licença, que vou fumar um cigarrinho...

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Escrito por Leonardo de Moraes às 16h28
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