Escritor em desabafo
O peixe que me venderam
Escrever é trem complicado. Idéias, palavras, idéias, palavras. Ambas me acompanham, sou grato. Elas vêm como que trazidas por algum “bilhete único”, a baraterar a condução. À vezes, porém, entram em sórdida disputa.
As palavras são simpáticas, pontuais. Ficam na cozinha, pano-de-prato à mão, preparadas para o serviço doméstico.
As idéias são apaixonantes. Preferem tomar um café, pernas cruzadas na sala-de-estar para deliberar o cardápio:
__ Devo ser escrita primeiro. Serei popular!
__ Comigo ele vai ganhar credibilidade!
__ Nada disso. Sou mais densa. Veja minhas tramas!
Falam como comadres à espera do cirurgião. As idéias diagramadas jogam à mesa suas tramas encadeadas. Tanta organização, e as palavras mostram-se inseguras para o serviço. Já as idéias grandiosas, da espécie vou-roubar-teu-sono te chantageiam, fazem nascer o temor do inconsciente coletivo, da antena alheia. E se esta traiçoeira pousar no ombro de outro escritor? Tanta volúpia possessiva, e a palavras desistem do serviço.
Medo: mudo fico.
Medo e criatividade não coabitam. Diante tela do computador vem um tipo de branco: o da abordagem criativa: qual o melhor formato? Tempero com sentimento ou sarcasmo? Filosofo ou sintetizo?
Fazer palavras e idéias entrarem em harmonia, jogo difícil. Apenas ignoro, abaixo as expectativas, desprezo a ansiedade. Como num sonho, excesso de consciência te faz acordar.
Letra a letra, palavra a palavra, oração a oração, período a período, parágrafo a parágrafo, capítulo a capítulo, o melhor é não pensar em nada, pensando em tudo ao mesmo tempo. Dizem que é nesse paradoxo que mora a arte. Pelo menos, esse foi o peixe que me venderam...
Escrito por Leonardo de Moraes às 20h12
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