RAGAZZO DI FAMIGLIA


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ESPERO VOCÊ POR LÁ!



Escrito por Leonardo de Moraes às 19h00
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Escritor em desabafo

O peixe que me venderam

 

 

Escrever é trem complicado. Idéias, palavras, idéias, palavras. Ambas me acompanham, sou grato. Elas vêm como que trazidas por algum “bilhete único”, a baraterar a condução. À vezes, porém, entram em sórdida disputa.

 

As palavras são simpáticas, pontuais. Ficam na cozinha, pano-de-prato à mão, preparadas para o serviço doméstico.

As idéias são apaixonantes. Preferem tomar um café, pernas cruzadas na sala-de-estar para deliberar o cardápio:

__ Devo ser escrita primeiro. Serei popular!

__ Comigo ele vai ganhar credibilidade!

__ Nada disso. Sou mais densa. Veja minhas tramas!

 

Falam como comadres à espera do cirurgião. As idéias diagramadas jogam à mesa suas tramas encadeadas. Tanta organização, e as palavras mostram-se inseguras para o serviço. Já as idéias grandiosas, da espécie vou-roubar-teu-sono te chantageiam, fazem nascer o temor do inconsciente coletivo, da antena alheia. E se esta traiçoeira pousar no ombro de outro escritor? Tanta volúpia possessiva, e a palavras desistem do serviço.

 

Medo: mudo fico.

 

Medo e criatividade não coabitam. Diante tela do computador vem um tipo de branco: o da abordagem criativa: qual o melhor formato? Tempero com sentimento ou sarcasmo? Filosofo ou sintetizo?

 

Fazer palavras e idéias entrarem em harmonia, jogo difícil. Apenas ignoro, abaixo as expectativas, desprezo a ansiedade. Como num sonho, excesso de consciência te faz acordar.

 

Letra a letra, palavra a palavra, oração a oração, período a período, parágrafo a parágrafo, capítulo a capítulo, o melhor é não pensar em nada, pensando em tudo ao mesmo tempo. Dizem que é nesse paradoxo que mora a arte. Pelo menos, esse foi o peixe que me venderam...



Categoria: CRÔNICAS
Escrito por Leonardo de Moraes às 20h12
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Convite Oficial "Contos Natalinos"


Prezado Amigo,



Categoria: LIVROS
Escrito por Leonardo de Moraes às 19h03
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Alquimia Natalina

 pela Assessoria de Imprensa


O livro “Contos Natalinos”, publicado pela Editora Atlas e cujo lançamento se dará no dia 15 de dezembro, às 19h, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, reúne professores, escritores, roteiristas de cinema, publicidade e televisão.

O livro foi idealizado por Leonardo de Moraes, assessor do governador do Estado de São Paulo Cláudio Lembo e autor do livro “
A Caixa de Confeitos & contos sortidos”, publicado pela Ed. Manole na XIX Bienal do Livro. “Esta foi a forma encontrada para reunir 25 ótimos contadores de histórias, que pudessem brindar os leitores com um pouco de seu imaginário, às vésperas do Natal, bem como homenagear os 40 anos de uma instituição séria como o CHESP”, afirma Moraes.

Os direitos autorais do livro serão totalmente revertidos para o
Centro dos Hemofílicos do Estado de São Paulo (CHESP). Segundo sua presidente, Maria Cecília Chiocca Magalhães Pinto, “o projeto é de uma delicadeza ímpar, e só vem reafirmar a importância da literatura como um móvel da sociedade, indireta ou diretamente, como no caso desse livro”.

Para Moraes, “em tempos de Internet, escrever não precisa mais ser um trabalho mais tão solitário. Grandes afinidades podem nascer de forma virtual, e tomar corpo em obras consistentes”. No caso de “Contos Natalinos”, alguns dos autores irão se conhecer justamente no dia do lançamento, vindo de diferentes partes do Brasil. “Será a nossa grande comemoração de Natal”, assegura o organizador da obra.

“Essa alquimia é fantástica. Tive o maior prazer em aceitar esse convite”, comenta
Solange Castro Neves, autora de telenovelas que trabalhou durante anos na Rede Globo, ao lado de figuras como Ivani Ribeiro e Cassiano Gabus Mendes. “A variedade de enfoques sobre a mesma festa cristã é o grande atrativo deste livro. Falar sobre o Natal foi uma satisfação, e no meu caso, deve ter iluminado meus caminhos”, brinca Cristina Ruiz, escritora e roteirista paulista que também integra a obra e acaba de vencer o “1º Concurso de Talentos ‘Scriptmakers”, organizado pela teledramaturgia de Portugal.



Categoria: LIVROS
Escrito por Leonardo de Moraes às 19h03
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!!! NOVIDADES DE FIM DE ANO !!!

 

 

Neste final de ano, algumas novidades: participei, uma vez mais, do belo trabalho realizado por Beto Muniz frente aos ANJOS DE PRATA e organizei um livro com vinte e cinco autores, intitulado CONTOS NATALINOS.

 

ANOTEM AS DATAS DOS LANÇAMENTOS:

 

CONTOS NATALINOS – Ed. Atlas

Vinte e cinco contos de vinte e cinco autores, com suas diferentes visões

a respeito da maior festa cristã: o NATAL

Organizador e autor: Leonardo de Moraes

Lançamento dia 15 de dezembro de 2006 (sexta-feira)

Local: Livraria Cultura – Shopping Villa-Lobos

A partir das 19h

Autores participantes:

Alberto Leôncio

Alexandre Kaup

Alice Betânia Miranda

Amanda Aouad

Antonio Alfredo Matthiesen

Bruno Pessa

Claudine Logrado

Cristina Ruiz

Del Schimmelpfeng

Eduardo Oliva

Fernando Américo

Fernando Watanabe

Gilberto Longo

Jean Cândido

Lelê Teles

Leonardo de Moraes

Luciano Milici

Milton Bernard

Paula Cury

Ricardo Silva

Sandra Villela

Saulo Aride

Solange Castro Neves

Teresa Fazolo

Tiago Feliziani



Escrito por Leonardo de Moraes às 15h38
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SÉTIMA ANTOLOGIA DOS ANJOS DE PRATA

Organizada por Beto Muniz.

Autor-participante: Leonardo de Moraes – conto “O Enforcado”

Lançamento dia 09 de dezembro de 2006 (sábado)

A partir das 19h

Local: RÁSCAL PIZZA & COZINHA

Alameda Santos 870 – Jd. Paulista 



Escrito por Leonardo de Moraes às 15h32
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Meu livro na Feira do Livro de Frankfurt de 2006

"A CAIXA DE CONFEITOS" NA FEIRA DE FRANKFURT 2006!

     

 

Hoje fui surpreendido por um email de uma amiga, Patricia Bates, que também é escritora. Ela estava de Férias na Alemanha e foi à Feira o Livro de Frankfurt - a maior feira literária do mundo, ocorrida entre 4 a 8 de outubro. No stand único do Brasil, montado pela CBL (Câmara Brasileira de Livros), eis que ela encontra numa das prateleiras "A CAIXA DE CONFEITOS". Dizem que o livro estava gritando "me comprem, me comprem..." em alemão.

Data: Mon, 9 Oct 2006 06:34:02 -0300 (ART)
De: Patricia B - Assunto: Foto
Para: Leonardo de Moraes

Oi Leonardo,

No sábado passado eu visitei a Feira do Livro em Frankfurt, que é considerada a maior feira comercial do mundo para a indústria
editorial e de publicação. O Brasil estava representado por um único stand da CBL (Câmara Brasileira do Livro), que tinha uma seção
dedicada para cada uma das maiores editoras do Brasil.

Na área da Manole, eu vi o seu livro exposto!! Tirei uma foto para você ver, coloquei na área de Álbum de Fotos.

Parabéns!

Um abraço,

Patricia
http://travelerslounge.blogspot.com

Os Garfields que me perdoem, mas depois de hoje, adoro segundas-feiras!

www.leonardodemoraes.com.br



Categoria: LIVROS
Escrito por Leonardo de Moraes às 16h01
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Confissões de um escritor

por Leonardo de Moraes

Depois de um texto bem escrito ou dois, três dias sem sentar diante da tela em branco do meu computador, me pego pensando será que vou conseguir escrever mais alguma coisa? Ser (estar) escritor é algo intangível: só se é no momento exato da criação, quando uma a uma as palavras são combinadas, entalhadas. Passado o momento, sou como a criança febril que quebrou um termômetro - entre as broncas da mãe, luto pra umedecer minhas mãos com o mercúrio, mas ele insiste em se esconder entre as dobras dos dedos.

Mas me considero um privilegiado: tenho um saúdavel distanciamento das minhas criações - quase raro na visceral raça dos escritores. Não me prendo a eles, tampouco me deixo prender. Ouço - até hoje - a voz da minha professora de literatura dos tempos do ginásio: "escreva, revise, corrija, mas não faça isso para sempre. Uma hora o texto pede para estar pronto, e o melhor que você fará é deixá-lo ir, do jeito que veio ao mundo, perfeitamente imperfeito".

Também creio (sinceramente) que não sofro de ciúmes das minhas produções; nem da psicanalítica "síndrome do ninho vazio" - aquela do filho-texto, abandonando seu hardware e saindo por aí, bêbado e sem licença para dirigir, prestes a ser submerso na crua-cruel apreciação alheia.

CONFESSO, PORÉM, PUBLICA E ABERTAMENTE, que temo a seca. Temo perceber que um dia o encanamento entupiu, a água parou de jorrar e o solo rachou. Pior: receio ser acometido de um tal daltonismo literário que me faça acreditar (piamente) que verde-abacate e cor de abóbora fazem um bonito degradè.

Mas sejamos otimistas. No dia em que isso acontecer, que a literatura resgate o "new wave" oitentista, e que meus escritos sejam considerados de vanguarda, um chamariz à moda caleidoscópica das letras. Talvez, com esse artifício, eu consiga reter o mercúrio da criação entre os dedos, num tempo suficiente para terminar meus dias me chamando escritor.


www.leonardodemoraes.com.br



Categoria: CRÔNICAS
Escrito por Leonardo de Moraes às 15h19
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O ENFORCADO

por Leonardo de Moraes

Arnaldo havia acordado cedo para resgatar o quanto antes quatro títulos protestados no 26º Tabelionato de Notas no centro de São Paulo. Cabisbaixo, teve ainda de negociar prazos de uma dívida no Banco, fruto de um empréstimo astronômico que fizera há pouco mais de seis meses. Por sorte, a gerente era uma simpática loira de coxas grossas, que interessada no rapaz, sempre se punha muito à vontade diante de suas visitas cada vez mais costumeiras.
“Escute, Arnaldo... vou te dar uma dica que vai levantar seu moral...” e a gerente lhe disse que na Rua São Bento, numa pequena galeria, ele poderia encontrar ajuda para todos os seus problemas. “Mais do que isso, querido... você vai achar a solução”.
Arnaldo sorriu, e antes de almoçar, foi a tal galeria. A moça havia lhe indicado apenas mais um agiota a querer lhe emprestar dinheiro. Refletiu, sorriu e partiu. Ainda prefiro os bancos, disse para si. No entanto, entre lojas de tatuagens, eletro-eletrônicos e máquinas de xérox, deparou-se com um logotipo em néon: um grande e arroxeado olho egípcio parecia piscar-lhe, convidando-o a entrar.
“Mas que será isso?”
Arnaldo olhou para o cartaz colado ao vidro:

MADAME NAZARA-LÓTUS DEVOLVE O EMPREGO E O AMOR. EXPERT EM DESATAR NÓS E DESAMARRAR A BOCA DE SAPOS

Arnaldo se lembrou da ex-noiva Carolina, da situação de sua empresa, e de tudo o que tinha perdido naqueles últimos seis meses. Realmente, alguma força misteriosa parecia estar operando por detrás de todas as desgraças de seu dia-a-dia. Foi então que uma menina de seus doze anos, subitamente empolgada, lhe entregou o único folheto que tinha nas mãos. “Moço, moço... você deve entrar aqui! Deve entrar aqui! A Madame Nazara-Lótus vai resolver todos os teus problemas!!!”.
Arnaldo olhou para ver se era realmente com ele que a pequena estava falando. Certificou-se que sim... Devo estar com o fundo do poço estampado na minha cara... e curioso, resolveu entrar.
“A Sra. Nazara está?” perguntou timidamente ao recepcionista. O mulato de sobrancelhas tiradas se esmerava em transformar as unhas em um espelho, tal a ferocidade com que lixava os sabugos.
“Madame está com apenas um cliente, pode esperar naquele sofá”, disse sem elevar o olhar um só instante, mas com um estranho sorrisinho no canto dos lábios.
Arnaldo se esforçou para ficar confortável durante os vinte minutos seguintes. Leu algumas revistas, mas sentava e levantava sem parar, quase tropeçando nas dobras do carpete. Pensava em ir embora dali, mas o desespero amoroso e financeiro funcionavam como duas pesadas bolas de ferro em seus pés.
“Pronto... Madame já poderá recebê-lo...” e o recepcionista – já de unhas feitas – lhe indicou o caminho.


Arnaldo seguiu um corredor e viu-se em uma outra ante-sala, esfumaçada por conta de um incensário. Na meia-luz, impressionou-se com alguns quadros tortos na parede roxeada. “Cacique Pena-Verde e a escada dos sete raios místicos – que diabos será isso?” Os olhos pinicaram de tanto fumacê, e lacrimejando por minutos, assustou-se com uma mão de mulher em suas costas.
“Venha por aqui. Agora você já está limpo”.
“Limpo? Como assim limpo?” perguntou intrigado.
“A ante-sala e o incenso limpam a aura, querido. Assim, quando a pessoa entra para ter com Madame Nazara, já está harmonizada.”
“Ah...” e Arnaldo ultrapassou uma cortina de contas, rumo a uma saleta escura. Um cheiro adocicado de jasmim tomava posse de suas narinas. Ao centro da saleta, uma pequena mesa circular lhe esperava, iluminada apenas por uma vela.
“Pode sentar nessa cadeira, relaxe seus ombros. Madame Nazara tudo pode revelar, tudo pode acalmar... desde que pague seu preço a Nazara... lhe dando a energia necessária para a leitura...”
Ela já estaria cobrando a consulta? Falava de si em terceira pessoa? Arnaldo indignou-se um bocado. Mas a mulher pareceu adivinhar-lhe os pensamentos, enquanto se ajeitava do outro lado da mesa.

### continua abaixo ###



Categoria: CONTOS
Escrito por Leonardo de Moraes às 15h11
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O enforcado - 2ª parte

“Nada de dinheiro agora, querido. Sou apenas um vaso, onde o astral deposita Madame Nazara Lótus. Faça uma oração em pensamento... e mentalize os seus problemas”.
Oração em pensamento? Tudo bem, afastaria o senso crítico antes que tivesse vontade de tirar um sarro de Madame. Pensou em Carolina e na possibilidade de ainda tê-la de volta... pensou no empréstimo junto ao banco, e porque teria sido tão tolo em aceita-lo... Parou de relutar, e entrou no clima.
“Madame Nazara já está se aproximando deste cavalo... agora é Madame Nazara quem falará.”
O frio na barriga foi incontrolável. Os lábios e os dedos da mulher começaram a tremer sobre a mesinha circular, como se tivessem personalidade própria.
“Meu rapaz, que a paz de Lótus te envolva... Sei que estás com problemas pessoais e profissionais... Quero que respire profundamente, para que todos os raios místicos possam operar dentro e fora do teu eu-espiritual.” Arnaldo fez o quanto foi pedido, sem rir.
A mulher se pôs a embaralhar um montinho de cartas: “Uhn... Arnaldo... Arnaldo Santos Gouvêia... filho do raio dourado...”
Como sabia seu nome inteiro? Ele teria comentado isso?
“Pegue sete cartas e as entregue para mim... na ordem de sua tirada” disse a mulher, espalhando o baralho em fileira. O rapaz engoliu em seco, fazendo o quanto pedido. Madame Nazara alinhou as cartas em formato de cruz, e as foi revelando devagar. Emitia interjeições, aumentando a acidez do estômago do rapaz.
“Porque tanta dificuldade em abrir mão, Arnaldo?” A pergunta soou como um golpe certeiro. Abrir mão do que? Da empresa de computação que estava se afogando em promissórias, ou da ex-noiva Carolina, cujo pai militar se tornara um tormento em suas vidas?
“Tua carta de significação, meu filho, é o Cinco de Espadas. Sabes o que é isso?”
Ele afirmou que não. “Isso mostra o que está na tua vida, o que te atormenta o sono e queima tuas entranhas...”
“Como?” retorquiu o rapaz, tenso.
“Tu tens de abrir mão, tens de encarar que não podes fazer tudo o que pretendes... que vai ter de superar o orgulho para aceitar apenas aquilo que podes fazer. Pára agora!” berrou a mulher
“Hã?”. Arnaldo assustou-se.
“Pára agora de abraçar o mundo! O momento é de renúncia...”
Madame pegou a mão do rapaz. Olhou para a palma, e logo pediu que a fechasse. Virou outra carta, e Arnaldo não gostou do que viu.
“Que carta é essa?”
“Carta cruzada, meu filho. É aquilo que tá bloqueando a tua vida.”
“Tudo bem... mas que desenho estranho é esse?”
“Esta é a carta do Enforcado.”

### continua abaixo ###



Categoria: CONTOS
Escrito por Leonardo de Moraes às 15h08
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O enforcado - 3ª parte

“Como???” e temeroso, ele então se questionou porque cargas d’água havia entrado naquele lugar.
“O Enforcado sacrificou demais a própria vida, e agora paga um preço assustador...”. Ela parou por alguns instantes, fazendo suspense propositalmente... então continuou. “A Roda da Fortuna já passou pela tua vida, fazendo o que era alto ficar baixo e o que era baixo ficar alto...”
“Sim... de fato eu...” Arnaldo tentou falar algo, mas logo foi interrompido.
“Sacrificaste demais tua vida para agradar aos outros... mas agora deve cortar as amarras do passado! As ilusões que pensas desejar... jamais serão tuas!”
De fato, Arnaldo havia sacrificado tudo pelo trabalho. Amizades, horas de sono e a leveza da juventude. Tudo feito para rechear a conta bancária, mas desde quando uma vidente lhe diria do que era ou não capaz? Quem seria ela para criticar suas ilusões?
“O que nunca vai ser meu?” indagou nervoso. A mulher virou outra carta.
“O que pensas ser teu amor... jamais será teu”, e Madame Nazara apertou os olhos, sinistra.
“Onde que tá isso, mulher? Na carta???”
Madame gargalhou e indicou com as unhas em formato de cunha: “Oito de Copas... a despedida da alma... a desistência da bem-querência”.
“Do que está falando, mulher? Eu só vim aqui para...”
“Não mintas para si mesmo! Vejo choro e luto na insistência frente ao amor do passado! Cuidado!” ela gritou incisiva.
“Quer saber, eu vou embor...” mas Arnaldo não teve tempo de se levantar da cadeira. A mulher tomou-lhe as mãos e o segurou junto à mesa. Disse incisiva, olhos nos olhos:
“Quando um caminho não será, não se teima. Se as coisas se perdem na jornada, é porque se deve deixa-las para trás... se caíram, não se deve retoma-las... que fiquem onde deveriam ficar!!!”
“Que está falando, mulher? Isso é besteira, eu não vou...”
“Negue, negue que tua empresa está com problemas por conta daquilo que considerava teu amor!!!”
Arnaldo ficou parado. Realmente, lembrou de Carolina e das dívidas que contraíra apenas para mostrar ao sogro Coronel o quanto ele estava se dando bem em sua micro-empresa. Talvez a tal Madame Nazara soubesse do que estava falando...
“Vejo nas tuas mãos...!” disse a mulher, torcendo os os braços de Arnaldo, “... o amor e a ajuda estão em outros braços, em outro sorriso!”
“Como, como assim? Quem eu...”
“Ela já te ajuda, já está presente em sua vida! E é iluminada pelos raios rosas de Saint Germain...”
“Ela o quê? Será que eu já conheç...”
“Sim, sim, sim! Você a amará com toda a toda a sua força!” e a mulher indicou outra carta sobre a mesa. “Você a amará com toda a sua potência!”
“Mas eu não...”
“Você a reencontrará ainda hoje, e enfim... sua vida terá o rumo que deverá ter! Agora vá! Vá-se daqui para nunca mais voltar!!!”
Arnaldo ficou constrangido. Tentou tirar o dinheiro do bolso mas foi impedido.
“Não devo aceitar seu dinheiro... Agora vá!”

### continua abaixo ###



Categoria: CONTOS
Escrito por Leonardo de Moraes às 15h07
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O enforcado - 4ª parte

 Arnaldo foi expulso da saleta, e seguiu em direção à saída da loja esotérica. Quanta maluquice! Desceu os dois lances de escada em direção à movimentada Rua São Bento. Iria almoçar rápido, e dali voltar para sua empresa, mas ouviu ao longe um chamado.

“Arnaldo, Arnaldo!” e a gerente de seu banco acenava, vistosa. “Estou indo almoçar, será que você gostaria de me acomp...”

“Claro!” ele respondeu, pensando nas palavras de Madame Nazara. Se ele já conhecia a mulher de sua vida... e se ela já o ajudava, ou se tratava de sua mãe, sua secretária de cento e cinco quilos ou então... a simpática gerente de seu banco! Sim, porque afinal de contas, ninguém que não fosse iluminada pelos raios rosa de Saint Germain, poderia usar uma saia rosa tão apertada contra as carnes... mas ainda assim tão graciosa. Arnaldo sorriu, liberto do passado, e esperançoso dos dias que se sucederiam. A gerente sorriu em retorno, extasiada com a atenção que recebera. Dali a oito meses, os dois estariam se casando.

 

* * *

 

Instantes depois do almoço, ainda à espera do cafezinho, a gerente pediu licença a Arnaldo e foi ao toalete. Pegou seu celular, discou e falou –empolgadíssima – com sua madrinha, do outro lado da linha.

“Deu certo! Ele até já me beijou!”

“Não havia te garantido? Moço curioso, era batata que ia entrar!” respondeu a mulher.

“Dinda, agora pode desamarrar! Tira logo o nome dele da boca do sapo!”

“Fique tranqüila, minha afilhada... Madame Nazara-Lótus promete, Madame Nazara-Lótus faz!”



Categoria: CONTOS
Escrito por Leonardo de Moraes às 14h59
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Pelo buraco da traqueostomia...

por Leonardo de Moraes

 

 

Preciso parar (de gostar) de fumar. Estou indo, definitivamente, de tenor a barítono. O problema é que segundo as malfadadas fotinhos atrás de cada maço, daqui a alguns anos vou ter que cantar "Nessum Dorma" pelo buraco da traqueostomia.

 

Mas não acredito que cigarro faça mal! Imagine só! Isso é um complô socialista, contra os arqui-inimigos do mundo de Marlboro. Assim como a malévola Coca-cola, o cigarro é perseguido por seu forte conteúdo ideológico ianque (!).

 

Há o lado bom: a fumaça do cigarro presenteou minhas cordas vocais um quê de encanto-cafona. Ao telefone, sou confundido com locutor de AM fazendo promoção de estadia em Motel. Maravilha... Pra ser perfeitamente entendido, tenho que falar alguns-vários tons mais alto. Se falar baixo, só ruído: como aqueles carros pré-injeção eletrônica, esquentando o motor a álcool na garagem.

 

Falando em álcool, não existe nada pior que o pânico de um ex-fumante diante de um chopp suado. Nos primeiros meses de abstinência da fumaça, se você sair pra beber, certamente vai fumar. Na minha última tentativa de me separar da minha amiga nicotina e do meu cumpádi alcatrão, me tranquei em casa. Eu, minha namorada, meu cachorro e potes de sorvete. Sair pra jantar? Imagine só... vou tomar vinho, e aí, por certo, fumar. Aniversário de amigos? Nããão... sem um cigarrinho, quanto tédio! Pior era aguentar meu irmão "fumante-social":

 

"Eu só fumo a noite, na ba-la-da. Nada a ver quem fuma todo dia..."

 

ARGH! Nada, nada, nada pode ser mais irritante para um ex-fumante ter de ouvir uma coisa dessas. Como alguém consegue manter uma relação civilizada - e não passional - com um cigarrinho? Pois bem, sou daqueles que esgotam o maço, que liquidam o pacote de bolachas bono diante de "Benji, o cachorrinho". Gosto de quem vai fundo. Nada de molhar os pés no raso. Tenho até um exemplo hollywoodiano para dar.

 

Nesses meus tempos de exílio da civilização, quando tentei parar de fumar, assisti em DVD o filme "Laura" (1944). Estrelando a trama - complexíssima para a época - estava Gene Tierney, incrivelmente sensual no clássico dos clássicos dos filmes noir P&B. O filme acabou e eu cliquei em "extras". Entre o ressonar da minha namorada e os espasmos (?) do meu cachorro, soube que Tirney, ao ingressar na carreira, foi incrivelmente criticada por ter uma voz "parecida com a da Minnie Mouse". Solução encontrada? Adivinhem... dou uma tragada pra quem adivinhar...

 

Gene Tierney começou a FUMAR, FUMAR e FUMAR. Eis o segredo da sexy voz de Laura! Ela fumou ininterruptamente até os 70 anos, quando então morreu de câncer nos pulmões. Mas não me venha com pueris relações de causa e efeito! Não senhor, a culpa não é do cigarro... sejamos mais criativos. O fato é que Tierney tinha uma queda por picles em conserva, e as estatísticas mostram que eles, assim como os diabólicos palmitos, têm agredido sobremaneira a saúde de incautos e incautas ao redor do mundo.

 

Agora me dêem licença, que vou fumar um cigarrinho...

MAIS SOBRE O AUTOR: www.leonardodemoraes.com.br



Categoria: CRÔNICAS
Escrito por Leonardo de Moraes às 16h28
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